Galão no verão na esplanada o alcatrão consome gelados de infantes malcriados nascidos no lugar errado já procriando outros.
Galão no verão o Espírito Santo na televisão o gelado caído do filho preterido Lisboa adormecida roupa estendida ao sol que não se vê nas ruas estreitas
Limpando pelo imóvel cortinas abertas à aragem e aos meus olhos volta a Portugal ressoa pelas paredes paralelas e disformes
Confunde-se com os calcanhares de policias e canções africanas
E tradutores do momento inventando palavras em francês
E inglês e espanhol e alemão de mapa na mão
entretendo o meu galão
de verão.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
1
Desço as escadas de madeira até
à sala e com os olhos meio fechados procuro a casa de banho.
Encontro-a e começa a
transformação. Ouvido de fora deve soar a morte quando
tusso os pulmões negros de tabaco e vomito as entranhas
liquefeitas de noite. Olho-me ao espelho e reconheço-me por
trás das veias salientes. Sou mesmo eu e isto não é
um pesadelo, estou em casa.
Ainda imagens de há bocado num
espaço indeterminado e cheiro a fumo. Imagens algumas
estroboscópicas e outras de dia.
Muito difusas , procuro por pistas nos
bolsos do casaco, uns extractos um cigarro de enrolar sem filtro.
Abro a carteira ainda tenho cartões parece tudo normal, tenho
o telefone.
Respira.
Os interiores já um bocado
gastos reclamam à sua maneira mas estou melhor. Procuro tabaco
e não encontro portanto visto as calças de ganga com a
forma das minhas pernas e vou ao Sorap. Antes endireito o cigarro do
bolso e fumo-o sem filtro. O Sorap é do Bangladesh e trabalha
numa dessas novas mercearias que se multiplicam por Lisboa. Às
vezes as cebolas são boas e têm sempre a aparelhagem
toda – filtros slim e mortalhas smoking azuis.
Na carteira com cartões não
há dinheiro, procuro nos bolsos das calças e do casaco
e também não o encontro.
Subo a escorregar pela calçada à
portuguesa até ao multibanco menos longe, o ecrã dá-me
as notícias que estava à espera, gastei outra vez muito
mais do que podia. Foi pelo menos um concerto em cerveja e sei lá
o que mais. Logo agora que tenho de arranjar um dente.
Desço a escorregar pela calçada
portuguesa de óculos escuros e mesmo assim a olhar para baixo
não vá passar por alguém que conheça.
Pago ao bangladeshiano, faço a esquina apoiado no varão
de trânsito, subo as escadas e estou em casa outra vez, vou
dormir fecho os olhos adormeço.
E mãos fechadas como estrelas
cadentes atravessam os agrupamentos planetários e os sistemas
entre um arco-íris nocturno e o negro do cosmos. Curvam e
dirigem-se para mim, sinto os murros, acordo, o telefone toca um
número desconhecido e escolho atender porque pode sempre ser
uma oportunidade irrepetível.
Tinha combinado conhecê-la.
Ficámos de nos encontrar no miradouro e quando cheguei já
me esperava. Estava com uns óculos escuros redondos e o cabelo
preso atrás. Olá tudo bem desculpa o atraso. Não
faz mal está um dia bonito está a saber-me bem estar
aqui.
Está bonito, a chuva passou e o sol
de inverno estende os braços pelo espaço cedido pelas
nuvens pesadas. Ilhas de luz no Tejo mas algum vento frio.
Digo que me atrasei porque ontem acabei por sair e fiquei até
mais tarde e não consegui acordar. Fui ao Coliseu ver uma
banda horrível que estava na moda nos anos noventa porque
alguém tinha bilhetes, como não estava a gostar nada
daquilo fiquei no bar o tempo todo. Acabei por me embebedar um bocado
e cheguei a casa de manhã. Explico-lhe que não me
lembro de nada desde a última imperial em copo de plástico
ao balcão até acordar e correr para a casa de banho.
O Norte entra-me pelo casaco e decido
fechá-lo.
Ela fica a olhar para ele e meio sem
saber se devia comentar ou não, acaba por dizer
Já reparaste que o teu casaco
está sujo?
Deixa-me ver parece sangue.
Pois devo ter caído, respondo,
procurando feridas debaixo da barba crescida. Sem cortes na cara, sem
dores nos ombros nos joelhos ou nos cotovelos, sem marcas aparentes
começo a pensar que este sangue no meu casaco, não é
do meu.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Letras do Disco PEDRO PUPPE SETEMBRO
Chama e Ouve
Não sei o que me
chama mas chama por mim
Acende-se nas noites que
não têm fim
Queima como fogo que arde
sem se ver
Caio de joelhos ainda está
a arder
Não sei o que é
a chama mas queima -me a mim
E depois de tantos anos
Não vou agora mudar
de planos
Eu quero ser apenas o que
posso ver
Há coisas que se
acabam antes de nascer
Não sei o que te
apaga
Acende-me a mim
Não sei porque não
ouves quando chamo por ti
Pergunto-me o que houve
para que seja assim
Vou passando os dias a
dizer que sim
E quase me esqueci do que
uma vez senti
Não sei o que tu
ouves quando chamo por ti
Mas depois de tantos anos
Não vou agora mudar
de planos
Eu quero ser apenas o que
posso ver
Há coisas que se
acabam antes de nascer
Não sei o que te
apaga
Acende-me a mim
Sim ou Não
És como um livro de
páginas molhadas
Por um balde de lágrimas
de convés
Toco desfazes-te nos meus
dedos
E nunca mais vou saber
quem és
Como uma orquestra afina
os instrumentos
Assim me preparo para te
receber
Mas és um navio que
renega os ventos
E continuo a ficar sem
saber
Se sim ou não
Oh não
Ou não
És como um livro de
palavras apagadas
Por um tipo de máquina
de esquecer
Toco desfazes-te dos meus
medos
e não tenho mais
nada a perder
E como uma orquestra
Afina os instrumentos
Assim me preparo
Para te receber
Mas é um navio que
renega os ventos
E continuo a ficar sem
saber
Se sim ou não
Oh não
Ou não
No Meu Caminho
Fiz tudo errado
Depois vi-te nascer
Eu que saía pelas
portas fora
Depois vi-te aparecer
Fiz tudo e mal
Agora vou tentar fazer
melhor
Eu entrava sempre pelas
portas dentro
Depois vi-te acontecer
Fazes-me virar
Insistes comigo
Vou para onde quero
Desde que estejas no meu
caminho
Fiz tudo e mal
Agora vou tentar fazer
melhor
Eu que saía pelas
portas fora
Depois quiz-te viver
Fazes-me virar
Insistes comigo
Vou para onde quero
Desde que estejas no meu
caminho
Falamos ao Longe
Hoje acabou o dia e vamos embora
Agora acabou o dia e vamos
embora
E se amanhã não
nos vamos ver
Hoje não vamos
deixar o sol nascer
Mas falamos ao longe
Falamos ao longe
Hoje acabou o verão
e vamos embora
Agora que acabou o verão
vamos embora
E se amanhã não
nos vamos ver
Hoje não vamos
deixar o sol descer
Mas falamos ao longe
Falamos ao longe
Se o caminho nos separa
Se a casa nos desune
Se o calor nos abandona
Alto para nos ouvirmos
Pernas presas de ficarmos
Unhas de nos agarrarmos
Vozes secas de gritarmos
Alto para nos ouvirmos
Luzia
Escrever um disco a
descrever a minha vida
Como se não me
quisesse afastar dela
Tão difícil
com vê-la reflectida
Olhando os vidros partidos
da memória
Eu já não
tenho mão para conter o juízo
Já não tenho
Mãe para ter vergonha
Deixo crescer a barba a
roer os cabelos
Para já prefiro
sobrevoar os penhascos
Espantando os olhos
tristes nas caravelas
Mas o sol gastou a capa
que Luzia
Incendiou a quinta a carne
e a alegria
E os dias vão
seguindo de seguida
A escrever um disco sobre
a minha vida
Eu já não
tenho mão para conter o juízo
Já não tenho
Mãe para ter vergonha
Deixo crescer a barba a
roer os cabelos
Para já prefiro
sobrevoar os penhascos
Espantando os olhos
tristes nas caravelas
Nada a Dizer
Certo errado o que fazer
Um dia vai-te acontecer
Índios hostis
nomeámos o
acampamento para vocês
Não tenho nada a
dizer
Nada a dizer
Tenho Nada a dizer
Nada a dizer
Não tenho nada a
dizer
Nada a dizer
Tenho Nada a dizer
Nada a dizer
Putos sem mal
Demos aos nossos soldados
um nome igual
Não sejas cabeça
dura
Deus está à
espera de ouvir alguma coisa tua
Podíamos ser nós
a arrastar-nos por aí
Mas essa coisa prefiro que
sejam outras bandas a fazer
Que eu não tenho
nada a dizer
Nada a dizer
Nada a dizer
Nada a dizer
Tenho nada a ceder
Nem razão para
viver
Vou lutar para vencer
Tenho nada a esconder
Timidez para perder
Queria ver
Queria ler
E pertencer
E liderar
Mas não tenho nada
a dizer
Nada a dizer
Nada a dizer
Nada a dizer
Nada a ceder
Nem razão para vencer
Matarei para viver
Tenho nada a esconder
Timidez para perder
O teu namorado
Só vais abrir os
olhos se eu estiver à tua frente
Muitas coisas livres é
para isso que tu vives
Todos os tesouros estou
aqui para tos guardar
Mas não queres
deixar
Que enquanto respiramos é
como se nos beijássemos
que o ar que tu expiras é
o mesmo que me inspira
Dizes muitas coisas belas
, eu acredito nelas
Mas não vais deixar
O teu namorado
As coisas que perdemos vão
ficar à nossa espera
A volta que daremos ser
descrita de quimera
Que estaremos juntos e
passaremos felizes
Sem teres de deixar
Mas o que passou passou e
o tempo não chega
E tudo o que ficou quando
chegar já era
Mundo não acabou
como previa o Maia
Nem tu vais deixar
O teu namorado
Minha namorada
Cidade Escura
Na cidade escura com o céu
cinzento
Há uma figura que
resiste ao vento
Apesar do tempo sem
ninguém na rua
Cheia de silêncio a
cidade escura
É a própria
sombra dessa figura
Cheia de raiva
Calada
Projectando frio
Outra vez outra vez outra
vez
A figura sou eu
Podes vir buscar-me?
Eu fui deixado aqui outra
vez
E perdi a chave
Vens ter comigo?
Se não vieres não
sei ir ter
Contigo
À entrada do café
à espera de atenção
Ninguém ajuda
porque ninguém vê
A menina do balcão
devolve com o olhar
Os solitários à
verdade crua da cidade escura
Que é a própria
sombra dessa figura
Cheia de raiva
Calada
Projectando frio
Outra vez outra vez outra
vez
A figura sou eu
Podes vir buscar-me?
Eu fui deixado aqui outra
vez
E perdi a chave
Vens ter comigo?
Se não vieres não
sei ir ter
Contigo
Inadmissivelmente Triste
As pessoas matam-se
As pessoas matam-se mesmo
Porque não vêem
futuro
Não vêem nada
de bom à sua frente
E isso é tão
triste
Isso é
inadmissivelmente triste
Enquanto se bebe cerveja
Há quem não
veja futuro à sua frente
Depois das trevas e do
renascimento
Chegámos a um novo
impasse civilizacional
E as escolhas que
escolhermos vão ser inócuas e inconsequentes
Não podemos fazer
nada porque vivemos em Portugal
E isso é tão
triste
Isso é
inadmissivelmente triste
Enquanto se bebe cerveja
Há quem não
veja futuro à sua frente
E isso é tão
triste
Isso é
inadmissivelmente triste
Enquanto se bebe cerveja
Há quem não
veja nada de bom à sua frente
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Setembro - o disco
" Escrever um disco a descrever a minha vida
Como se não me quisesse afastar dela"
Já tinha pensado fazer um disco com as canções que andava a escrever, mas só quando o Henrique Amaro mo propôs, com data orçamento e tudo é que a empresa se pôs em marcha.
Comprei um pedal de efeitos para a minha guitarra que vinha com sistema operativo e placa de som, que me permitia finalmente gravar as ideias sem ser no telefone. Comecei então a deslocar o material que me ocupava a memória , até poder ter a coragem de ligar ao Henrique a dizer bora lá.
Um disco a solo é uma aventura de introspecção que me meteu medo durante muito tempo. Aliada à minha natural inépcia para tocar instrumentos , essa pesquisa parecia-me um sítio onde eu não queria ir. Depois pensei que era apenas um disco e não precisava de ser assim tão profundo.
Para me proteger, gravei as canções com baixo teclas e bateria de um modo tradicional que já conhecia, mas ao ouvir aquilo percebi que estava a fazer no fundo o que já tinha feito, mas sem a riqueza da contribuição de outros músicos. Já tinha as musicas mas procurava ainda a forma de as acabar. Conclui que era um disco a solo e como já estou farto de me chatear por causa de problemas de bandas e seus dilemas de egos, horários e manias (a maior parte deles causada provavelmente por mim), resolvi gravar tudo sozinho. Sem ter ninguém no estúdio para pedir conselhos, tomando as minhas próprias decisões. O Henrique pôs-me à vontade para fazer artisticamente o que quisesse e fui para o campo fazer a pré- produção, fase em que se decide a estética final das canções.
De todas as opções possíveis acabei por escolher na maior parte das vezes a primeira gravada no telefone, por mais tosca que fosse era a real. Acabei com uma forma muito simples em que muitos dos temas acabam por ter só uma guitarra tocada numa só corda durante a maior parte do tempo , enfatizando as letras e a mensagem.
Soube que o disco sairia em Setembro. Já tinha pensado assinar como 13 de Setembro em homenagem ao meu avô que quando desenhava assinava 13 de Maio , sua data de nascimento. O disco é um disco triste e melancólico, fim de verão e cor purpura. Resolvi chama-lo Setembro.
A gravação com o Artur David em dez dias de Agosto correu bem.
Ía a pé para o estúdio e ele manteve-me fiel ao meu conceito original, não me permitindo grandes desvios em relação à pré-produção e mais importante(?), fazendo com que tudo soasse bem. O Artur foi muito importante no resultado final.
O disco começa com "Chama e Ouve" sobre escolhas de vida e falhas de comunicação. Gravei-a com a minha primeira guitarra acústica e com uma melódica do chinês. Convidei a brasileira Tiê para cantar a segunda voz mas ela nunca me respondeu, pelo que tive de cantá-la eu.
"No Meu Caminho" fala do efeito do nascimento de uma criança numa pessoa tempestuosa. O que era uma ideia escrita para alguém que não eu, a vida transformou numa das mais autobiográficas do disco...
"Sim ou Não" sobre a fragilidade de uma relação foi inspirada no Tom Waits e é a preferida da minha irmã, que é uma romântica.
"Luzia" era o nome da mãe e a minha canção preferida do disco.
"Falamos ao Longe" sobre o fim de verão e a melancolia da separação.
E outras coisas também. É difícil definir.
"Cidade Escura" lado mais b da existência de um espírito sensível.
"O Teu Namorado" , numa festa um amigo de um amigo que vive em Madrid elogia aquela dos MIUDA que vai para a cama com toda a gente, pensava que lhe faltava( ao projecto) uma dimensão lésbica. Concordei e escrevi para ser cantada por uma mulher, mas depois gostei demasiado dela.
"Nada a Dizer" era a que cantava sem me pedirem. Sempre senti que era a música da minha geração. Gravada a tocar e a cantar ao mesmo tempo.
" Inadmissivelmente Triste" quando ouvi na euronews a noticia gravei com o meu microfone. Depois nessa noite acrescentei tudo o resto voz guitarra e sintetizador. Em estúdio, decidimos que não a poderíamos reproduzir melhor.
Foi um disco feito "à mão" e para a capa segui o mesmo conceito, tentando pintá-la ao mesmo tempo que o ouvia, tentando descrever as suas cores. Filmei o processo e devo ser dos primeiros a ter um vídeo do disco inteiro. Previsível como o crepitar do fogo ou as nossas vidas.
Como se não me quisesse afastar dela"
Já tinha pensado fazer um disco com as canções que andava a escrever, mas só quando o Henrique Amaro mo propôs, com data orçamento e tudo é que a empresa se pôs em marcha.
Comprei um pedal de efeitos para a minha guitarra que vinha com sistema operativo e placa de som, que me permitia finalmente gravar as ideias sem ser no telefone. Comecei então a deslocar o material que me ocupava a memória , até poder ter a coragem de ligar ao Henrique a dizer bora lá.
Um disco a solo é uma aventura de introspecção que me meteu medo durante muito tempo. Aliada à minha natural inépcia para tocar instrumentos , essa pesquisa parecia-me um sítio onde eu não queria ir. Depois pensei que era apenas um disco e não precisava de ser assim tão profundo.
Para me proteger, gravei as canções com baixo teclas e bateria de um modo tradicional que já conhecia, mas ao ouvir aquilo percebi que estava a fazer no fundo o que já tinha feito, mas sem a riqueza da contribuição de outros músicos. Já tinha as musicas mas procurava ainda a forma de as acabar. Conclui que era um disco a solo e como já estou farto de me chatear por causa de problemas de bandas e seus dilemas de egos, horários e manias (a maior parte deles causada provavelmente por mim), resolvi gravar tudo sozinho. Sem ter ninguém no estúdio para pedir conselhos, tomando as minhas próprias decisões. O Henrique pôs-me à vontade para fazer artisticamente o que quisesse e fui para o campo fazer a pré- produção, fase em que se decide a estética final das canções.
De todas as opções possíveis acabei por escolher na maior parte das vezes a primeira gravada no telefone, por mais tosca que fosse era a real. Acabei com uma forma muito simples em que muitos dos temas acabam por ter só uma guitarra tocada numa só corda durante a maior parte do tempo , enfatizando as letras e a mensagem.
Soube que o disco sairia em Setembro. Já tinha pensado assinar como 13 de Setembro em homenagem ao meu avô que quando desenhava assinava 13 de Maio , sua data de nascimento. O disco é um disco triste e melancólico, fim de verão e cor purpura. Resolvi chama-lo Setembro.
A gravação com o Artur David em dez dias de Agosto correu bem.
Ía a pé para o estúdio e ele manteve-me fiel ao meu conceito original, não me permitindo grandes desvios em relação à pré-produção e mais importante(?), fazendo com que tudo soasse bem. O Artur foi muito importante no resultado final.
O disco começa com "Chama e Ouve" sobre escolhas de vida e falhas de comunicação. Gravei-a com a minha primeira guitarra acústica e com uma melódica do chinês. Convidei a brasileira Tiê para cantar a segunda voz mas ela nunca me respondeu, pelo que tive de cantá-la eu.
"No Meu Caminho" fala do efeito do nascimento de uma criança numa pessoa tempestuosa. O que era uma ideia escrita para alguém que não eu, a vida transformou numa das mais autobiográficas do disco...
"Sim ou Não" sobre a fragilidade de uma relação foi inspirada no Tom Waits e é a preferida da minha irmã, que é uma romântica.
"Luzia" era o nome da mãe e a minha canção preferida do disco.
"Falamos ao Longe" sobre o fim de verão e a melancolia da separação.
E outras coisas também. É difícil definir.
"Cidade Escura" lado mais b da existência de um espírito sensível.
"O Teu Namorado" , numa festa um amigo de um amigo que vive em Madrid elogia aquela dos MIUDA que vai para a cama com toda a gente, pensava que lhe faltava( ao projecto) uma dimensão lésbica. Concordei e escrevi para ser cantada por uma mulher, mas depois gostei demasiado dela.
"Nada a Dizer" era a que cantava sem me pedirem. Sempre senti que era a música da minha geração. Gravada a tocar e a cantar ao mesmo tempo.
" Inadmissivelmente Triste" quando ouvi na euronews a noticia gravei com o meu microfone. Depois nessa noite acrescentei tudo o resto voz guitarra e sintetizador. Em estúdio, decidimos que não a poderíamos reproduzir melhor.
Foi um disco feito "à mão" e para a capa segui o mesmo conceito, tentando pintá-la ao mesmo tempo que o ouvia, tentando descrever as suas cores. Filmei o processo e devo ser dos primeiros a ter um vídeo do disco inteiro. Previsível como o crepitar do fogo ou as nossas vidas.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Sem compromissos
Sem compromissos
A subir os degraus do teatro a barraca
em santos, rápido porque já se ouve a guitarra tocada,
é a primeira vez que ouço TvRural. No andar do
concerto, um grupo de cinquenta pessoas entoa cada silaba de uma
letra cujo significado me escapa, gritada sem pudor na língua de
lisboa.
No palco a catarse dramática de
olhos fechados, explosiva gutural tensa poética e surreal
acontece.
Na altura (2001?) ninguém
escreve em português e eles fazem-no com a segurança de
quem cresceu a ouvi-lo.
A música dos TvRural pode ser
descrita como anti-pop, pela sua rejeição sistemática
das fórmulas compositivas de formatos amigos da rádio,
pela sua busca do espontâneo, do gozo e às vezes do
feio. É tudo liberdade de fazer o que aqueles músicos
descendentes do psicadélico e do progressivo querem fazer, com
arranjos elaborados e vários momentos melódicos e
rítmicos por tema, acentuando a dimensão teatral da
performance da banda, nunca antes totalmente traduzida quando
gravada. Na “Balada do Coiote” fruto talvez das experiências
extra banda de alguns dos seus membros, eles conseguem transmitir
esse ambiente que se vive ao vivo, num registo gravado.
Os TvRural nunca tiveram problemas em
beber da panela. Foram sempre o que quiseram ser. Influenciaram todos
os que os ouviram. E o novo disco -sem nunca se comprometer- apenas
desilude quando acaba.
A propósito e a pedido dos TvRural , sobre "a Balada do Coiote"
quarta-feira, 17 de julho de 2013
A Azeitona Insegura
A Azeitona Insegura
Só, num ramo verde frágil, segura apenas por uma mão, ela
olha as irmãs a ficarem maduras falando de riquezas interiores. Falando do seu
corpo e da sua pele ficar morena, perenes nos dias de chuva e indiferentes ao
vento forte que a ela quase que leva.
Esta árvore já formou centenas de cursos e nunca ninguém
apontou qualquer defeito na sua formação.
Por algum motivo há flores que aparecem primeiro, a
disciplina obriga a que se lhes dê prioridade. Esta foi das últimas a
decidir-se e por isso nem foi numerada, como se não contassem que chegasse ao
fim.
Demorou a nascer e foi num lugar improvável que revelou a sua
personalidade, resistindo ao norte, às dores de ouvido e noites sem dormir. Lá
foi crescendo no meio da folhagem sem pedir autorização para se tornar grande
e finalmente perceber o segredo de todo
aquele rigor.
Supostamente no fim dos dias mais difíceis, ser-lhes-ía dito
alguma coisa que justificaria todo aquele orgulho e presunção. As flores mais velhas sabiam que a
escola lhes tinha preparado um ramo durante um ano inteiro e isso enchia-as de
orgulho e sentimento de individualidade. Mas o ramo onde florescia segura
apenas por uma mão, parecia recém nascido e cadente. E questionava- -se.
Num dia de maio, mergulhada nas suas inquietações, respirando
de braços abertos o ar a ficar mais quente, foi-lhe revelado finalmente o
segredo.
A árvore reconhecia-lhe a tenacidade e acreditava no seu
valor, podia ser uma das outras e representar todo o Olival. Apesar de esmagada
pela responsabilidade, sentiu-se colorida.
Deveria ouvir uma canção naqueles dias. Uma canção mágica que
contava a mesma história repetida todos os anos ao longo dos séculos. Não se
cantava pela boca nem se ouvia pelos ouvidos.
Era como se se respirasse e de repente se soubesse que o
destino era ser fruto.
E depois ouro.
Agora sim cheia do seu tesouro, ela própria meio e fim, sorri
à chuva e espera pelo futuro.
A música da primavera poliniza as flores que passam a ser
fruto que se prepara para ser colhido pelo homem. Isto aprende-se na primeira
aula. A obrigação da azeitona é esforçar-se para crescer bem e estar no seu
melhor no dia da Colheita.
Apesar de ter sido aceite ainda faltava muito para se tornar
azeite e comparada continuava meio esverdeada e pequena. O frio chegou, mas do
inverno já não tem medo, e foi numa dessas noites que o viu pela primeira vez.
Gigante, afastando os quartos da sua academia com os seus
braços enormes, era um homem, que agora olhava directamente para ela e lhe
admirava a cor. Depois de deter-se um bocado a perceber-lhe o tamanho,
afasta-se o colosso suspirando nuvens da boca.
Toda a velha instituição tremeu depois daquela inspecção.
Então o homem fora escolher logo aquela para olhar? Ainda não totalmente preta
e já o inverno se consuma adivinhando o grande dia.
Seria esta vez a primeira que a reconhecida fonte não seria
escolhida?
Sentindo a pressão, a nossa azeitona não dorme e faz por
crescer em todos os momentos em que as outras, grandes e ociosas , descansam ao
sol de Novembro.
Mas o tempo de crescer passou. Aproxima-se o dia da Colheita.
Nesta árvore e em todas no grande mar que se estende até onde o sol se põe,
faz-se a cerimónia do final de ano.
Todas as azeitonas incluindo as inseguras trajam de preto
total e a escola descansa por mais um dever cumprido.
Um dia depois chegam as máquinas com homens lá dentro a
cantar.
Dos seus pulmões sai a mesma canção que tinha sentido no dia
da sua polinização. O dia em que lhe foi revelado o segredo e o seu destino
glorioso. Desta vez eram os homens e não o vento a cantá-la.
Já no cesto, recordou-se de tudo o que tinha passado até
àquele momento, de ser flor e de ser pequena.
Agora repara que no cesto é mais do que ela. Passou a ser uma
com as suas semelhantes e é como um rio.
Repara que das outras árvores-escola saem outras como ela,
pequenas e da sua cor.
Pensa como tudo faz sentido e , já no Lagar, não se contém.
Comovida, desfaz-se em lágrimas.
E transforma-se em Azeite.
O António sabe que o fruto das azeitonas inseguras faz um
Azeite melhor. E por isso escolheu aquele lote para levar ao concurso de onde
levou o primeiro prémio.
Na quinta celebrou-se. A árvore foi informada.
25/12/12 para o livro do António Corrêa Nunes "Os Caminhos do Azeite"
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